21.11.06

"Com o tempo, o ovo se tornou um ovo de galinha. Não o é. Mas, adoptado, usa-lhe o sobrenome. – Deve-se dizer “o ovo da galinha”. Se eu disser apenas “o ovo”, esgota-se o assunto, e o mundo fica nu. – Em relação ao ovo, o perigo é que se descubra o que se poderia chamar de beleza, isto é, sua veracidade. A veracidade do ovo não é verosímil. Se descobrirem, podem querer obrigá-lo a se tornar rectangular. O perigo não é para o ovo, ele não se tornaria rectangular. (Nossa garantia é que ele não pode: não poder é a grande força do ovo: sua grandiosidade vem da grandeza de não poder, que se irradia como um não querer.) Mas quem lutasse por torná-lo rectangular estaria perdendo a própria vida. O ovo nos expõe, portanto, em perigo. Nossa vantagem é que o ovo é invisível. E quanto aos iniciados, os iniciados disfarçam o ovo."

Clarice Lispector, O ovo e a galinha

imagem de Sergio Bertolini

Convidada a participar no Congresso Mundial de Bruxaria, na Colômbia, Clarice Lispector limitou-se à leitura do conto O ovo e a galinha. “Conto que é misterioso mesmo para mim. Um texto hermético e incompreensível. Cheio de uma simbologia secreta”, declarou.

Anos mais tarde, dizia o escritor Otto Lara Resende ao biógrafo de C.L., José Castello: "Você deve tomar cuidado com Clarice. Não se trata de literatura, mas de bruxaria."

16.11.06




"Pouco depois estavam todos sentados no agradável chão da gruta. Abriram uma lata de carne, cortaram grandes fatias de pão e fizeram umas delicisas sanduíches. como ainda não estivessem satisfeitos abriram, em seguida, uma lata de ananás e comeram num instante as doces e suculentas rodelas. Mas a fome era muita e não hesitaram em abrir mais duas latas de sardinhas, terminando cada um a refeição com sua mancheia de bolachas.Foi um jantarão."

in, os Cinco Voltam à Ilha, Enid Blyton


Há tempos prometi relembrar outro saudoso piquenique de infância. A promessa cumpre-se agora, até para contrariar a chuva que insiste em nos roubar o Verão. No entanto, ao reler esta passagem, que à época me fazia salivar, duas interrogações chegam de imediato: Como é que um chão de uma gruta é agradável e como é que eu salivava perante a descrição de sandes de carne enlatada?
Estou velha...

10.11.06

dois livros infantis a não perder…

belíssimas ilustrações, alguma música e um bocadinho de inverno…













c'était l'hiver, huber-kono, du panama

la musique russe, helft, c., gallimard jeunesse

6.11.06

eu já desconfiava, mas ainda assim quis tentar perceber por que razão há tantos franceses interessados neste livro...

o livro chama-se "rendez-vous", mas podia chamar-se a vida sexual entediante de christine angot...

sem interesse, vulgar e gratuito...


"il m'avait léchée, il était du genre obstiné, volontaire, il le faisait bien, il baladait sa langue sur mon clitoris délicatement, peu d'hommes me l'avaient fait aussi bien." ... e assim, passaram 50 páginas, nesta lenga lenga...
prémio goncourt

5.11.06

© morgan big, feliciano type foundry

" As letras do macarrão fazem poemas concretos."
in, Chico Buarque

31.10.06


"A sua fome repetia-se, estupidamente, dia após dia, e com essa falta de criatividade orgânica Hinnerk sentia-se desiludido e, de certo modo enganado. Como um som que permanece após mil ruídos que surgem e a certa altura parecem ser fundamentais, mas que acabam por desaparecer - também o seu apetite vulgar, diário, se tornara uma obsessão incómoda. Ainda para mais muitos anos depois da violência da guerra: não se resignava ao facto de o instinto de sobrevivência estar virado para a procura do alimento. A necessidade de matar - que ele vivera - parecia-lhe mais nobre, para a espécie humana, que a necessidade de comer."
in, Jerusalém, Gonçalo M. Tavares

Se em todas as dietas da alma tivessemos esta vontade, seriamos muito mais esbeltos...


27.10.06

"tu n'as pas de coeur, l'entendis-je dire dans mon dos.
je n'en avais plus, en effet. cet espace de souffrance et de plénitude n'habitait plus ma poitrine..."
" rencontrer quelqu'un devrait constituer un événement(...) une rencontre ce n'est plus rien. on a des exemples paroxystiques: proust rencontre joyce dans un taxi et, pendant cette entrevue unique, ne parlant que du prix de la course; tout se passe comme si plus personne ne croyait aux rencontres, en cette possibilité sublime de connaître quelqu'un. le tueur va plus loin que les autres: il prend le risque de liquider celui qu'il rencontre. cela crée un lien. si proust avait assassiné joyce dans ce taxi, on serais moins déçu, on se dirait que ces deux-là s'étaient trouvés.
journal d'hirondelle, amélie nothomb, albin michel

18.10.06

Quando o trabalho não me dá descanso, penso em seguir uma nuvem qualquer.

"Há sujeitos que não gostam de fazer coisa nenhuma senão estar a olhar para uma nuvem. Eu considero esses tipos utilíssimos, porque ninguém sabe o que sairá dali. Não se conta aquela história de que a lei da gravitação apareceu por ter caído uma maçã na cabeça do Newton? Não era obrigatório que o Newton estivesse a estudar matemática na altura em que lhe caiu a maçã na cabeça...podia estar a dormir debaixo da árvore, ou qualquer coisa assim, eu sei lá!"

Agostinho da Silva, em conversa com Gil de Carvalho e Manuel Hermínio Monteiro
"Ir à Índia sem abandonar Portugal"

16.10.06

jerémi parte à procura da sua filha, tendo como única referência uma fotografia, que guarda no bolso.

de annecy a genebra, de genebra a paris, de paris a lisboa e de lisboa à tailândia... ele encontra magdalena, a sua filha, nas 4 últimas páginas do livro... parece-me que afinal ele tinha mais vontade de viajar do que encontrá-la...

...era um livro dispensável da minha estante... mas o destino fez com que uma chavena de café se derramasse sobre ele... e, assim sendo, vou ter que o guardar...

la course du chevau-léger, jacques a. bertrand, julliard

8.10.06

... um pequeno livro com uma grande história...

"je n'oublierai jamais les jours qui précédèrent notre départ. c'etait "l'été indien" et les feuilles d'un vert sans éclat se mettaient à flamber dans des tons orangés, rouges, jaunes et cramoisis"
"j'examinai l'écriture un moment avant de déchirer l'enveloppe. j'aimais toujours retarder des choses comme ça, les faire durer un peu plus longtemps que nécessaire"

"les gens chez qui tu habites doivent être vraiment très riches et très gentils. j'ai tellement peur que tu m'oublies. grand-mère est décédée, elle est morte le lendemain de votre départ (...)

je n'en croyais pas mes yeux. j'avais l'impression de lire la lettre de quelqu'un d'autre. cette lettre ne m'était pas destinée. grand-mère ne pouvais pas mourir et abandonner grand-père. ils étaient faits l'un pour l'autre. quand deux personnes vont si bien ensemble, il ne faut pas que l'une d'elles quitte l'autre comme ça sans prévenir".

in un été indien, truman capote, rivages

5.10.06


Pão com Tulicreme


"Tudo estava a postos para a festa. A Teresa até tinha conseguido ir à salinha de música, acender o fogão, para o quarto ficar quente quando chegassem as suas convidadas.
Recebera dois bolos grandes, o que muito lhe agradara. Colocara o maior numa das mesas, para o repartir com as alunas do seu ano. Guardara o outro para a festa da meia-noite. Havia biscoitos, doces, chocolates, um grande bolo de frutas, quatro latas de pêssego e uma lata de leite condensado para fazer creme! Também arranjara salsichas pequeninas para fritar!"
As Gémeas Voltam ao Colégio, Enid Blyton


Hoje decidi recordar os melhores piqueniques literários da minha infância. Ainda hoje se notam nas páginas, as nódoas que fazia ao lê-los. Prometo que as comezainas dos Cinco também não serão esquecidas.

1.10.06



"She is tall and slender, perhaps seventy, silver-haired, soigné, neither black nor white, a pale golden rum color. She is a Martinique aristocrat who lives in Fort de France but also has an apartment in Paris. We are sitting on the terrace of her house, an airy, elegant house that looks as if it were made of wodden lace: it reminds me of certain old New Orleans houses. We are drinking iced mint tea slightly flavoured with absinthe."

in, Music for Chameleons, Truman Capote

(Conto incluido no livro My Side of the Matter)


Adoro a preguiça pressuposta neste momento. Confesso que tenho um certo apelo por terraços e velhas aristocratas com
patine... Suspeito também que o absinto, mesmo que em pequenas quantidades, ajude a criar ambiente.

26.9.06

A História da Minha Máquina de Escrever


O melhor neste livro são as pinturas de Sam Messer a que Paul Auster dá voz.

"Sam apossou-se da minha máquina de escrever e, a pouco e pouco, transformou um objecto inanimado num ser com uma personalidade e uma presença no mundo".

A velha "Olympia" ora está zangada ou triste, ora dança e sorri - parece sempre uma máquina de escrever e algo mais que uma máquina de escrever.

25.9.06

"... dei-me conta de que tinhamos o mesmo passado, gostasse ou não, essa era a pura verdade. com o passar do tempo acabei por compreender que tinhamos também o mesmo futuro."

"tudo se estraga, tudo se gasta, tudo acaba por deixar de servir, mas a máquina de escrever continua comigo."

"é verão e a manhã que se vê da janela é quente e verde e bela. a máquina de escrever está na mesa da cozinha e as minhas estão na máquina de escrever. letra a letra, vi-a a escrever estas palavras. "

2 de julho de 2000

gosto das mãos grandes do paul auster nas ilustrações de sam messer...

20.9.06

já cá canta....

...vamos a isto?

15.9.06




A Aranha

"E a aranha não tem patas; não são patas: são talheres. Substitutos do garfo e da faca. São talheres as patas da aranha, e neles há uma colher para comer o doce que é a massa encefálica dos insectos capturados. É mesmo assim: à colher. De chá.
A aranha dança em bicos de pés depois do estômago cheio, contente da vida negra.
Os talheres negros da aranha mexem no alimento com perícia. São pauzinhos chineses, e com habilidade ela os move, aos pretos pauzinhos. Aos pretos e sádicos pauzinhos.
Mas a aranha continua a existir; portanto também deve amar. Mas isso, nunca vi."

in, Nove insultos a nove animais, Gonçalo M. Tavares
Ilustração - Rachel Caiano
(Conto incluído nas Quatro histórias com Barão - homenagem a Branquinho da Fonseca)

A mim ensinaram-me que não se matam aranhas para não afastarmos a riqueza, talvez por isso sejam tão boas
gourmets. E quem se diverte assim à mesa, ama infinitamente...

11.9.06


happy hour

"Morris não era pessoa que precisasse de ser instada, e a superior qualidade do clarete constituiu para ele encorajamento bastante. O vinho do doutor era admirável, e pode comunicar-se ao leitor que, enquanto o saboreava, Morris cogitava que uma adega com bons vinhos - era evidente que havia uma adega - constituía num sogro uma idiossincrasia muitíssimo atraente. O doutor ficou impressionado com o seu hóspede apreciador; viu logo que ele não era um jovem vulgar. "Tem capacidade", disse o pai de Catherine, "uma nítida capacidade; tem boa cabeça, se quiser usá-la. E é invulgarmente bem parecido; o género de figura que agrada às senhoras; mas acho que não gosto dele."
A Herdeira, Henry James

6.9.06

GARDEN - PARTY COM VISTA PARA O MAR


(...)
ROGÉRIO
Querida amiga!

IRENE
Não estou tão velha assim para me tratar por querida amiga.

ROGÉRIO
Não. Querida é uma coisa, amiga é outra.

IRENE
Trouxe o Miguel comigo. Pensei assim: quem tenho eu que diga bem com um relvado à beira-mar? Só Miguel, que tem um ar pensativo. Um homem vicioso tem sempre um ar pensativo.

MIGUEL
Vicioso, eu? Eu gosto de mulheres, é tudo.

IRENE
Já ninguém gosta de mulheres. Só por aberração. Até acho justo. As mulheres eram enfadonhas, agora são duma vulgaridade horrível. Não a sua, Rogério. Leonor é...

LEONOR
Encantadora, já sei.

IRENE
Não se subestime. Uma mulher encantadora está perto de só ser recordada pelas fotografias de férias. Não é isso. Para começar você faz dez anos de casada. Quer melhor motivo para ser notável? Ninguém faz mais dez anos de casada. É uma idade rupestre. Devia ser gravada na pedra a vinte metros de profundidade.

LEONOR
Está gravada a cem metros de profundidade.

IRENE
Como faz para respirar?

LEONOR
Não sei. Essas coisas não se chegam a saber.

(...)

Excerto de Party, os diálogos escritos por Agustina Bessa-Luís para o filme de Manoel de Oliveira.

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4.9.06


O brunch do lobo mau

Esta história é como um almoço familiar, já a conhecemos desde sempre mas por vezes surpreende-nos!
...

" A avozinha já almoçou?"

"Ainda não", disse o lobo. "Estava à tua espera..." e aproximou a sua cadeira da cadeira da Capuchinho Vermelho, pondo-lhe o braço à volta dos ombros.
"Que braço tão grande, avozinha!",
disse Capuchinho Vermelho.
"É para te abraçar melhor...",
respondeu o lobo, apertando-a contra si.
"E que olhos tão grandes com que está!"

"São para te ver melhor, minha querida..."

"E que orelhas tão grandes!"

"São para te ouvir melhor..."

"E a boca, que boca tão grande!"

"É para te comer melhor!",
disse o lobo pondo-se de repente de pé, saltando sobre a Capuchinho Vermelho e comendo-a.
Quando acabou de comer a Capuchinho Vermelho, o lobo lambendo os beiços exausto e satisfeito, achou que era melhor ficar por ali e dormir um pouco enquanto fazia a digestão. Tinha comido a avó e Capuchinho uma a seguir à outra e estava a abarrotar, por isso adormeceu rapidamente.

A mãe voltou então do trabalho e deu com o lobo a dormir na sala e as roupas da Capuchinho Vermelho espalhadas pelo chão. Em grande aflição, percebeu logo o que se tinha passado. Cheia de raiva, correu ao anexo do quintal, trouxe uma forquilha e espetou-a no lobo com toda a força, matando-o. Seguidamente, pegou numa grande faca e tirou-lhe cuidadosamente a pele.
"Assim como assim", disse a mãe, "sempre fico com uma estola..."
Nos dias seguintes a toilette da mãe foi objecto de grande admiração entre as colegas de escritório: um vestido vermelho rubro que lhe ficava muito, muito bem e uma belíssima pele de lobo ao pescoço."


in, A história do Capuchinho Vermelho contada a crianças e nem por isso por Manuel António Pina segundo desenhos de Paula Rego