13.8.06




Alguém pediu um Porto Ferreira?


" On le boit à l'Anglaise, já que assim se fazia em Portugal... Ah! Sim, era um ritual já centenário: os Portugueses faziam tudo por envenenar os Ingleses, mas eles resistiam, com uma convicção inébranlable... E Queiroz explicou como, fazendo rodar a garrafa no sentido contrário ao dos ponteiros de um relógio, nunca a passando de mão em mão para evitar que ela fosse sacudida: pousava-se na mesa e o vizinho pegava nela com o mesmo cuidado. Como o sal, por causa do azar..."


José Augusto França, A Bela Angevina

7.8.06



O PRATO DO DIA

"Madame Breton pusera um cuidado especial nos petits plats que preparara ao gosto de Grasset e do marido que se encarregara dos vinhos, orgulhoso do seu côteaux du Layon que acompanhava magistralmente, os brochets de la Loire au
court-bouillon."
"Grasset digeria com beatitude e entrou num elogio do novo licor, esse produto do seu amigo Edouard Cointreau que havia de ir longe. Queiroz percebeu que o banco financiava a empresa, prevendo grandes lucros, e apreciou outra vez o seu perfume de laranja, certo de que não lhe iria fazer bem; já o sabia, do Curaçao das Antilhas."

A Bela Angevina, José Augusto França

Livros de infância são livros de Verão


Nestes dois livros "para crianças" de Agustina Bessa-Luís, regressamos ao tempo em que o agora é muito mais importante do que o amanhã.





Lourença, aos seis anos, sabia muitas coisas que ninguém suspeitava. Guardava-as para ela, porque as pessoas que nos conhecem de perto não são capazes de nos levar a sério. Artur ria-se da sabedoria de Lourença, a ponto de ela julgar que se tratava de algo de feio. Não compreendia como os adultos tratavam a gente pequena daquela maneira: como se fosse só números de circo e mais nada.

Dentes de Rato

A mãe queixou-se de que Lourença não gostava dela. Não se gosta todos os dias de tudo, nem dos pais, nem dos irmãos. É preciso pôr espaço entre nós e os outros, senão a malícia entra no coração como uma erva que cresça com o amor.

Vento, areia e amoras bravas







30.7.06



" Os Portugueses foram grandes revolucionários da estética do paladar, porque universalizaram gostos novos e confundiram a geografia botânica pelas suas transplantaçõess ousadas." Fidelino Figueiredo

José Quitério, Livro de Bem Comer

O elogio gastronómico suplanta a cozinha e perde-se nas eiras da horta...

29.7.06



Procurei numa livraria um dos meus livros de infância, Uma mão cheia de nada outra de coisa nenhuma, de Irene Lisboa. Mas a edição que encontrei perdeu a capa laranja e os desenhos de Pitum Keil Amaral. Já não é o mesmo livro.
Se o encontrarem, avisem.


22.7.06



Se fosse um livro da Ana Teresa Pereira ele matava-a no fim.

Fiquei com vontade de ler "Histórias policiais".

20.7.06

Nas estantes arrumo os livros por afinidades.
Manoel de Barros e Mia Couto desacostumam as coisas e desarranjam palavras.



Desinventar objectos. O pente, por exemplo. Dar ao pente funções de não pentear. Até que ele
fique à disposição de ser uma begônia. Ou uma gravanha.

Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma.

Manoel de Barros






A poesia está guardada nas palavras - é tudo que
eu sei.

Meu fado é o de não entender quase tudo.
Prepondero a sandeu.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não cultivo conexões com o real.
Para mim, poderoso não é aquele que descobre ouro,
Poderoso para mim é aquele que descobre as insignificâncias:
(do mundo e nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei muito emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.

Manoel de Barros

18.7.06

ENCANTADOR DE PALAVRAS

Deus disse: vou ajeitar você a um dom.
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.
Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águias tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras.


Manoel de Barros





16.7.06

"na verdade passo a manhã quase toda a ler ou sentado na poltrona mais próxima da lareira a fumar. e a pensar nela. acho que nunca pensei tanto numa mulher."

" o amor de tom. o corpo de tom, as suas palavras... não existia mais nada."

" não teve consciência do que se passou nos minutos seguintes. só se deu conta que a abraçava, que ela estava de pé e colada ao seu corpo, sentia-lhe os seios, o ventre. cobriu-lhe o rosto de beijos pequeninos, percebeu que ela era quente, que a sua carne emanava um calor quase de febre, pensou vagamente que ela não era feita de água e noite mas sim de fogo, que começara a amá-la sem saber qual era a sua substância."
histórias policiais, ana teresa pereira, relógio d'água

9.7.06




Regresso a Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de Clarice Lispector.


Um livro de iniciação...à alegria, ao prazer, ao exercício da vida, à graça.





sentou-se para descansar e em breve fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que que dela não estava em silêncio alvíssimo escorrendo sangue escarlate, e que ela não estivesse pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde-cintilante, faz de conta que amava e era amada, faz de conta que não precisava de morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus,

Continua em o dia oportuno

2.7.06

... eu já tinha descoberto a anna gavalda há mais tempo...

e hoje, ao acabar este livro lembrei-me... eu e o n. estavamos no porto e decidimos ir até ao majestic beber um café. nessa tarde, no majestic, havia a apresentação de um livro. a autora estava sentada no meio de dois senhores da editora dom quixote. o editor falou durante algum tempo sobre o livro e a certa altura perguntou às pessoas se queriam fazer perguntas. ninguém tomou a iniciativa (não me pareceu que estivessem ali para assistir à apresentação, mas sim para beber um café). ele insistiu. ninguém se manifestou. e, em desespero de causa, pareceu-me, ele disse que oferecia um livro a quem fizesse a primeira
pergunta e então surgiram algumas questões forçadas. no final, não sei se por esquecimento ou pela qualidade das perguntas (ou falta dela), ele não ofereceu livro nenhum!

o primeiro livro que li da anna gavalda, foi no ano passado. era uma história pequena que penso não estar traduzida em português. o título original é "ceux qui savent comprendront". era
uma história realmente muito pequena que li numa noite de babysitting. era também uma história muito simples... e acho que os livros dela são todos assim... o que eu gosto nesta escritora é o seu poder de observação, é a forma simples como ela descreve o que observa, o humor que utiliza e o facto de todas as "estórias" esconderem, por detrás dessa simplicidade e humor, uma verdade...

para os que não conhecem... a descobrir...

26.6.06

desafio para o verão...

lemos (ou relemos) toda a "recherche"?







25.6.06

Livro pedido

Para o E.


"Não entender" era tão vasto que ultrapassava qualquer entender - entender era sempre limitado. Mas não-entender não tinha fronteiras e levava ao infinito, ao Deus. Não era um não-entender como um simples de espírito. O bom era ter uma inteligência e não entender. Era uma bênção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez.

Mas de vez em quando vinha a inquietação insuportável: queria entender o bastante para pelo menos ter mais consciência daquilo que ela não entendia. Embora no fundo não quisesse compreender. Sabia que aquilo era impossível e todas as vezes que pensara que se compreendera era por ter compreendido errado. Compreender era sempre um erro - preferia a largueza tão ampla e livre e sem erros que era não-entender. Era ruim, mas pelo menos se sabia que se estava em plena condição humana.
No entanto às vezes adivinhava. Eram manchas cósmicas que substituíam entender.


Clarice Lispector
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres



20.6.06

J., obrigada pelo livro e pelo elogio(?).

Madame Géniale se trouvait géniale.
Elle n' avait pas tout à fait tort,
mais pas tout à fait raison non plus.

Madame Genial achava-se genial.
Ela nunca estava errada,
mas também não tinha sempre razão.

14.6.06

Abrir um livro ao acaso e encontrar o poema oportuno.

Chuva de primavera -
Uma menina ensina
O gato a dançar.

Issa Kobayashi
Primeira Neve
(tradução de Jorge Sousa Braga)

9.6.06


Para a abertura da época balnear, levo "Kafka à beira-mar".

Se as leituras também obedecem às estações, encontrei o livro ideal para o prelúdio do Verão. E não é apenas pela sugestão do título...
No dia em que faz quinze anos kafka foge de casa, segue viagem até uma cidade distante e aí fica a viver, num canto de uma biblioteca; um velho fala com gatos, o misterioso Johnnie Walker colecciona as almas dos felinos, do céu chovem sardinhas e cavalas...

8.6.06


Para quem Deseja Casar

e para todos os saudosistas fiéis ao desejocasar.blogspot.com, finalmente o livro.

Amanhã, 6ª feira, dia 9, pelas 18h30, podem conhecer os autores na banca da Verso da Kapa (Casa das Letras) - do lado esquerdo de quem sobe a Feira do Livro, a partir do Marquês.


O lançamento do livro é no dia 13 de Junho, 3ª feira, às 21h no espaço principal da Feira do Livro.


7.6.06




ENSEMBLE C'EST TOUT
ANNA GAVALDA






"elle n'etait pas pressée et fit la queue devant la devanture d'un traiteur chic pour s'offrir un bon diner. ou plutôt une bonne bouteille. (...) finalement, elle indiqua au vendeur un morceau de chèvre et deux petits pains aux noix."

"quoique... tu aurais des doutes, malgré tout... à cause de ses mains, de son cou, de cette façon qu'il avait de promener l'ongle de son pouce sur sa lèvre inférieure... oui... tu hésiterais... c'etait peut être une fille finalement? une fille habillée en sac. comme si elle cherchait à cacher son corps? tu essayerais de regarder ailleurs mais tu ne pourrais pas t'empêcher d'y revenir. parce que il y avait un truc, là... l'air etait spécial autour de cette personne. ou la lumière peut-être?
voilà. c'etait ça.
si tu venais d'entrer dans cette lavomatic pourrie de l'avenue de la bourdonnais un 29 décembre à cinq heures de l'après-midi et que tu apercevais cette silhouette sous la lumière triste des néons, tu te dirais exactement ceci: ben merde... un ange..."

" tu as raison, on ne va pas y arriver... il vaut mieux que tu te casses... mais laisse moi te dire deux choses avant de te souhaiter bonne route. la première, c'est à propos des intellectuels justement... c'est facile de se foutre de leur gueule... oui... c'est vachement facile... souvent, ils sont pas trés musclés et en plus, ils n'aiment pas ça, se battre... ça ne les excite pas plus que ça les bruits de bottes, les medailles et les grosses limousines, alors oui, c'est pas trés dure... il suffit de l'arracher leur livre des mains, leur guitare, leur crayon ou leur appareil photo et déjà, ils ne sont plus bons à rien ces empotés... d'ailleurs, les dictateurs, c'est souvent la première chose qu'ils font: casser les lunettes, brûler les livres ou interdire les concerts, ça leur coute pas cher et ça peut leur éviter bien des contrariétés par la suite... mais tu vois, si être intello ça veux dire aimer s'instruire, être curieux, attentif, admirer, s'êmouvoir, essayer de comprendre comment tout ça tient de bout et tenter de se coucher un peu moins con que la veille, alors oui, je le revandique totalement: non seulement je suis une intello mais en plus je suis fière de l'être... vachement fière, même..."

"... et puis je vais aller me promener... la lumière est belle... je finirai sûrement dans un café ou un salon de thé...manger des scones à la gelée de myrtilles..."

" ils se donnèrent la main en remontant à la surface.
la main, c'est bien.
ça n'engage pas trop celui qui la donne et ça apaise beaucoup celui qui la reçoit..."

6.6.06

Ainda a lógica do absurdo.

UM HOMEM QUE ESCREVE

Um homem tinha escrito cabeça na testa e mão em cada mão, e pé em cada pé.
O pai dele disse, pára, pára pára pára, pois a redundância é como ter dois filhos, o que é dois filhos a mais, como logo à partida é já um filho de mais.

O homem disse, posso escrever pai no pai?
Sim, disse o pai, porque um pai está cansado de suportar tudo sozinho.

A mãe disse, vou-me embora se todas essas pessoas vierem jantar.
Mas o pai escreveu jantar em todo o jantar.

Quando o jantar acabou o pai disse ao filho, poderás escrever arroto no meu arroto?

O homem disse, hei-de escrever Deus abençoe todos em Deus.


Russel Edson



5.6.06

Nos saldos da Assírio e Alvim, na Feira do Livro, descobrimos O Túnel, de Russell Edson, um livro de poemas em prosa, trágicómicos.

OUTONO

Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa segurando-as com os braços esticados dizendo aos pais que era uma árvore.

Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala pois as tuas raízes podem estragar a carpete.

Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as folhas.

Mas os pais disseram olha é outono.